{"id":11160,"date":"2024-06-24T09:03:21","date_gmt":"2024-06-24T12:03:21","guid":{"rendered":"http:\/\/silvafreire.com.br\/site\/?p=11160"},"modified":"2024-06-24T09:03:21","modified_gmt":"2024-06-24T12:03:21","slug":"responsabilidade-objetiva-das-concessionarias-de-rodovia-os-dois-lados-da-mesma-moeda-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/silvafreire.com.br\/site\/responsabilidade-objetiva-das-concessionarias-de-rodovia-os-dois-lados-da-mesma-moeda-2\/","title":{"rendered":"Responsabilidade Objetiva das Concession\u00e1rias de Rodovia: os Dois Lados da Mesma Moeda"},"content":{"rendered":"\n\t\t\t\t\n<p>Como de conhecimento, o dever de indenizar \u00e9 caracterizado pela\npresen\u00e7a dos seguintes requisitos: a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o volunt\u00e1ria, rela\u00e7\u00e3o de\ncausalidade ou nexo causal, dano e, por fim, culpa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\nsua vez, a responsabilidade civil objetiva\n\u00e9 aquela que independe de culpa ou dolo de quem pratica a a\u00e7\u00e3o e est\u00e1 inserida em diversas atividades que\nenvolvem riscos, como \u00e9 o caso das Concession\u00e1rias de Rodovia.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto,\nno tocante aos acidentes que envolvem usu\u00e1rios que trafegam por rodovias, \u00e9\nnecess\u00e1rio analisar, caso a caso, a responsabilidade das Concession\u00e1rias\nprestadoras de um servi\u00e7o p\u00fablico perante terceiros,\nsendo controvertido, a depender do caso concreto,\no dever ou n\u00e3o de ressarcimento dos\npreju\u00edzos ocasionados.<\/p>\n\n\n\n<p>Dito isso, necess\u00e1rio expor\nduas situa\u00e7\u00f5es em que a responsabilidade objetiva\n\u00e9 tratada, conforme entendimento jurisprudencial, de\nforma completamente distinta.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1\nmuito se discute a responsabilidade civil das concession\u00e1rias de rodovias em\nacidentes causados por animais na pista.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse panorama, saliente-se, de plano,\nque a Corte Especial do Superior Tribunal\nde Justi\u00e7a (STJ) afetou para julgamento sob o rito\ndos repetitivos o Recurso Especial n\u00ba 1.908.738, tendo a controv\u00e9rsia sido\ncadastrada como Tema 1.122.<\/p>\n\n\n\n<p>As quest\u00f5es submetidas a julgamento s\u00e3o: <em>&#8220;(a) responsabilidade (ou n\u00e3o) das\nconcession\u00e1rias de rodovia por acidente de tr\u00e2nsito causado por animal\ndom\u00e9stico na pista de rolamento; (b) car\u00e1ter objetivo ou subjetivo dessa responsabilidade \u00e0 luz do C\u00f3digo de Defesa do Consumidor e da Lei das\nConcess\u00f5es&#8221;<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente,\na jurisprud\u00eancia majorit\u00e1ria indica que, demonstrado o nexo de causalidade entre o choque do ve\u00edculo\ncom o animal na pista\nde rodagem e os danos\ndo autom\u00f3vel, estaria,\nem tese, caracterizada a falha\nna presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os da concession\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse\nentendimento considera que a invas\u00e3o da pista por animais est\u00e1 inserida no\nrisco da atividade econ\u00f4mica desenvolvida pelas concession\u00e1rias, afastando-se a\nresponsabilidade de terceiros, a culpa exclusiva da v\u00edtima (art. 14, \u00a7 3\u00ba, II,\ndo CDC), ou, ainda, o caso fortuito ou for\u00e7a maior.<br><\/p>\n\n\n\n<p>O referido\nentendimento se ampara,\nprincipalmente, nos contratos firmados entre o ente p\u00fablico e as concession\u00e1rias, que \u00e9 o instrumento pelo qual se formaliza a\nconcess\u00e3o do servi\u00e7o p\u00fablico e que compreende os servi\u00e7os de recupera\u00e7\u00e3o,\nmanuten\u00e7\u00e3o, monitora\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o, opera\u00e7\u00e3o, amplia\u00e7\u00e3o, melhorias e\nexplora\u00e7\u00e3o do Lote Rodovi\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Se\nconsta do Termo de Contrato de Concess\u00e3o Rodovi\u00e1ria que a concess\u00e3o compreende\na explora\u00e7\u00e3o da rodovia, mediante cobran\u00e7a de ped\u00e1gio, nela inclu\u00eddos os\nservi\u00e7os acima mencionados, prevista est\u00e1 a varredura constante das pistas, dos\nacostamentos e das faixas de seguran\u00e7a, com a retirada de elementos\ninconvenientes, tais como areia, pedras, fragmentos de pneus, detritos\norg\u00e2nicos (animais acidentados, vegeta\u00e7\u00e3o, etc.) e quaisquer outros lesivos \u00e0\nseguran\u00e7a dos usu\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo,\nem que pese a previs\u00e3o contratual \u2013 inserida em grande parte dos contratos de\nconcess\u00e3o, sen\u00e3o todos \u2013, merece destaque o fato de que as cercas constru\u00eddas\npelas concession\u00e1rias de rodovia n\u00e3o possu\u00edrem a finalidade de preservar ou\nevitar a fuga do animal. Muito pelo contr\u00e1rio. No caso de atividades\nagropecu\u00e1rias, cabe ao propriet\u00e1rio ou criador promover o refor\u00e7o e manuten\u00e7\u00e3o\ndas cercas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob esse enfoque,\nsabe-se que a responsabilidade por fato de animais \u00e9 regulada pelo artigo 936 do\nC\u00f3digo Civil, segundo\no qual <em>\u201co dono, ou detentor,\ndo animal ressarcir\u00e1 o dano por este causado, se n\u00e3o provar culpa da v\u00edtima ou\nfor\u00e7a maior\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nestes\ncasos, o dono ou detentor do animal somente exonerar-se-\u00e1 da responsabilidade\nse provar um dos fatos descritos na lei.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dito alhures, a legisla\u00e7\u00e3o civil\nvigente atribui ao propriet\u00e1rio dos animais a responsabilidade\nobjetiva de arcar com o custeio das constru\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias a impedir a passagem destes a outros terrenos, conforme emana do art. 1.297,\n\u00a7 3\u00ba, bem como responsabiliza o propriet\u00e1rio pelos danos\ncausados por estes. E \u00e9 a\u00ed que reside a controv\u00e9rsia, pois caso imputada a\nresponsabilidade objetiva \u00e0 concession\u00e1ria, nada impedir\u00e1 o seu direito de\nregresso contra o respons\u00e1vel pelo animal que causou o acidente, acaso ele seja\nidentificado.<\/p>\n\n\n\n<p>Fato \u00e9 que, ainda\nque a responsabiliza\u00e7\u00e3o das concession\u00e1rias seja o posicionamento majorit\u00e1rio dos Tribunais, o tema \u00e9 de fato controverso e,\nportanto, uma an\u00e1lise pormenorizada dever\u00e1 ser feita para o caso concreto.\nRepita-se. A possibilidade de surgimento de animais na pista est\u00e1 inserida no\nrisco do neg\u00f3cio, mas, a depender do caso, a reponsabilidade dever\u00e1 ser\nafastada, como por exemplo, a responsabilidade de terceiros ou culpa exclusiva\nda v\u00edtima (artigo 14, \u00a7 3\u00ba, II, do CDC).<br><\/p>\n\n\n\n<p>Sob\noutro prisma, aborda-se, agora, a responsabilidade pelos assaltos cometidos em\nfilas de ped\u00e1gio. \u00c9 dever das Concession\u00e1rias ressarcirem os danos\neventualmente suportados pelos usu\u00e1rios que trafegam na rodovia.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como ocorre nos casos de acidente que envolvem animais,\nas Concession\u00e1rias prestadoras de servi\u00e7o p\u00fablico em\ndelega\u00e7\u00e3o sujeitam-se ao regime de responsabilidade civil da Administra\u00e7\u00e3o\nP\u00fablica e, portanto, respondem, conforme entendimento dos Tribunais,\nobjetivamente, nos termos do art. 37, \u00a76\u00ba, da CF\/88, tendo em vista a teoria do\nrisco administrativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia,\nassaltos cometidos em filas de ped\u00e1gio, s\u00e3o considerados eventualidades de fato\nde terceiro, que configuram fortuito externo e, consequentemente, exclui-se\na responsabilidade civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em\nsuma, quando a conduta praticada por terceiro n\u00e3o apresenta qualquer rela\u00e7\u00e3o\ncom a organiza\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio\nou com a atividade desenvolvida pela empresa, admite-se que o fato de\nterceiro foi a causa \u00fanica do dano e, portanto, considera-se que houve o\nrompimento do nexo causal.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes casos, a interpreta\u00e7\u00e3o da norma\nconstitucional deve ser feita \u201c<em>cum grano salis<\/em>\u201d (\u201ccom um p\u00e9 atr\u00e1s\u201d),\npois se trata de circunst\u00e2ncia que exclui a responsabilidade civil objetiva,\nante o rompimento do nexo causal.<\/p>\n\n\n\n<p>Como\ndito anteriormente, a seguran\u00e7a propiciada pelas concession\u00e1rias aos usu\u00e1rios,\ncorresponde ao bom estado de conserva\u00e7\u00e3o e sinaliza\u00e7\u00e3o da rodovia. Sem embargo,\nn\u00e3o tem como as concession\u00e1rias se responsabilizarem pela seguran\u00e7a privada ao\nlongo da estrada, mesmo que seja em postos de ped\u00e1gio ou de atendimento ao\nusu\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob\nesse enfoque, necess\u00e1rio esclarecer que, o roubo com emprego de arma de fogo \u00e9\nconsiderado um fato de terceiro an\u00e1logo a for\u00e7a maior e, consequentemente,\nexclui o dever de indenizar. Trata-se de fato inevit\u00e1vel e incontrol\u00e1vel e,\nportanto, gera uma incerteza absoluta de n\u00e3o ocorr\u00eancia do dano.<\/p>\n\n\n\n<p>Oportuno\nressaltar, uma vez mais, que embora seja o tema controverso, a responsabilidade\nobjetiva das concession\u00e1rias por danos sofridos por seus usu\u00e1rios \u00e9 o\nentendimento adotado pelos Tribunais. N\u00e3o obstante, a ocorr\u00eancia de roubo, com\nemprego de arma de fogo, \u00e9 evento capaz e suficiente para romper com a\nexist\u00eancia de nexo causal, afastando-se, assim, a responsabilidade das\nempresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive,\no Superior Tribunal de Justi\u00e7a possui entendimento consolidado de que as\nconcession\u00e1rias n\u00e3o t\u00eam responsabilidade civil diante do crime de roubo com emprego\nde arma de fogo cometido na fila de\nped\u00e1gio.<br><\/p>\n\n\n\n<p>O\nMinistro Marco Aur\u00e9lio Bellizze, no julgamento do RECURSO ESPECIAL 1872260\/SP\n(2019\/0371145-7), observou que a jurisprud\u00eancia pacificou o entendimento de que\nconcession\u00e1ria que administra rodovia mant\u00e9m rela\u00e7\u00e3o\nde consumo com os respectivos usu\u00e1rios \u2013 portanto, sua responsabilidade \u00e9 objetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar\ndisso, segundo o Ministro, caso fique comprovada a exist\u00eancia de alguma das\nhip\u00f3teses de exclus\u00e3o do nexo causal \u2013 culpa exclusiva da v\u00edtima, fato de terceiro,\ncaso fortuito ou for\u00e7a maior \u2013, a\nresponsabilidade da concession\u00e1ria de servi\u00e7o p\u00fablico ser\u00e1 afastada.<\/p>\n\n\n\n<p>Igualmente, concluiu o Ministro que <em>&#8220;A causa do evento danoso \u2013 roubo com emprego\nde arma de fogo contra os autores \u2013 n\u00e3o apresenta\nqualquer conex\u00e3o com a atividade desempenhada pela recorrente, estando fora dos\nriscos assumidos na concess\u00e3o da rodovia, que diz respeito apenas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o\ne \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da estrada, sobretudo porque a seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 dever do Estado&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Infere-se,\npois, que as concession\u00e1rias de rodovia n\u00e3o devem ser responsabilizadas por\nroubo com emprego de arma de fogo cometido contra seus usu\u00e1rios em posto de\nped\u00e1gio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou\nseja, para arrematar e sintetizar a ideia de responsabilidade objetiva das\nconcession\u00e1rias de rodovia, tem-se que esta prescinde de uma an\u00e1lise mais\naprofundada, vez que, a depender do caso concreto, poder\u00e1 a responsabilidade\nser afastada.<\/p>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como de conhecimento, o dever de indenizar \u00e9 caracterizado pela presen\u00e7a dos seguintes requisitos: a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o volunt\u00e1ria, rela\u00e7\u00e3o de causalidade ou nexo causal, dano e, por fim, culpa. Por sua vez, a responsabilidade civil objetiva \u00e9 aquela que independe de culpa ou dolo de quem pratica a a\u00e7\u00e3o e est\u00e1 inserida em diversas atividades [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[30],"tags":[],"class_list":["post-11160","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/silvafreire.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/silvafreire.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/silvafreire.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/silvafreire.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/silvafreire.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11160"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/silvafreire.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11160\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/silvafreire.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/silvafreire.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/silvafreire.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}